January 11, 2014
Quantas histórias um livro pode contar?

                Empilhados sobre o criado-mudo ao lado da cama estão cinco livros. Dois lidos apenas pela metade, aguardando disciplinados a retomada de leitura; outros dois na fila, conformados a esperar por sua vez e; um outro, que sem pestanejar ultrapassou os anteriores e descansa no topo da pilha de livros.

                Um privilegiado pelo desejo e pela ansiedade. Um presente com muitas histórias. A Flor da Inglaterra.

                Quando George Orwell escreveu A Flor da Inglaterra, provavelmente teria uma história para contar sobre essa ação. Não sobre o enredo, afinal este pode ser lido nas páginas publicadas, mas sobre a história por trás da história. Qual temperatura fazia quando ele começou a escrever o tal livro?  Quantas xícaras de café foram necessárias para parir cada capítulo, cada página, cada frase, cada vírgula e ponto final? Quais foram as dúvidas, anseios, medos, ideias descartadas e outras tantas recicladas? Escrito à mão ou datilografado em uma velha e já muito surrada máquina de escrever? Qual foi a sensação ao finalizá-lo? Qual era o clima nesse dia? Quem foi a primeira pessoa a ler o manuscrito? Qual foi a expressão da mesma ao mergulhar na história? A pré-história da própria narrativa.

                A história em si. Páginas e mais páginas. Fim.

                Um casal de amigos entra em uma livraria. Ela puxa da prateleira a Flor da Inglaterra, lê a sinopse e se interessa. Será que compra? Fica em dúvida e não leva. Quando finalmente decide comprar já é tarde. Parece ter sumido de todas as prateleiras da cidade e de todos os sites de venda. Aquele era o último exemplar de todos? Um exagero. Se arrependimento matasse…

                No entanto… No entanto, havia um prazer secreto entre os dois amigos. Ele e ela esquadrinhavam as prateleiras de todas as bancas, livrarias, sebos e bibliotecas que visitavam. Um acordo silencioso. Não era preciso dizer ou propôr nada.

                Semanas, meses e meses. De amizade para amor. Agora procuram de mãos dadas. Tantas coisas entre aquele dia distante na livraria e o agora. Uma constante na história desses dois.

                Quase Natal. Ela tentava adivinhar o presente. “É a Flor da Inglaterra?”. Ele permaneceu inexpressivo. Uma pedra. “Nem tente adivinhar”.

                Era Natal. Fazia um dia agradável. Quente, porém agradável. O quarto com a porta fechada, as persianas balançando suavemente com o vento. Um beijo, um sorriso e um pacote mal embrulhado. Ele senta na cadeira e espera ansioso. 

                Um pacote rasgado. Um sorriso de felicidade e descrença. A constante estava quebrada. A Flor da Inglaterra estava em mãos, junto de um cartão: “A única constante que eu pretendo continuar mantendo é você”. Ela tinha os olhos marejados de lágrimas. Ele as faces rosadas. Outro beijo e mais outros.

                Quantas histórias um livro pode contar? Infinitas. Não sei. A única certeza é que esta é a minha A Flor da Inglaterra. Ele está no topo da pilha. Ainda estou lendo.

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September 8, 2013
Setembro.

Setembro.